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A Clínica
Conheça uma pouco mais sobre a Clínica Pínel

 

A Clínica Pinel completa cinqüenta e dois anos de vida. Uma trajetória marcada pelo pioneirismo no trabalho com saúde mental. Completar cinqüenta anos após ter superado vários obstáculos nos faz mais fortes como instituição. Sabemos que muitos dos problemas enfrentados só foram superados com o empenho daqueles que fizeram da Clínica Pinel uma referência no tratamento psiquiátrico brasileiro.

Hoje, nosso sentimento é de que muito está por vir. Mãos à obra, afinal trabalho, dedicação e amor pelo que fazemos continuarão sendo os princípios básicos da Clínica Pinel para os próximos anos.

Depoimentos


Marcelo Blaya Perez

 

Porque a Clínica Pinel? Recém chegado dos Estados Unidos precisava de um lugar para meus pacientes psicóticos. O São Pedro, fora de questão, um grande depósito de doentes crônicos, hoje felizmente reformulado. O Sanatório São José, um serviço particular fechado onde apenas dois ou três colegas podiam internar.Sobrava o Hospital Espírita, onde o Dr. Pedro Rosa, diretor clínico , permitiu a internação. Eram poucos, em média dois ou três, o que possibilitava que todas as manhãs, quando ia ao que na época era o fim de Teresópolis e da cidade, tivesse entrevistas com pacientes e familiares, de pelo menos uma hora de duração. Quando terminava, tinha a satisfação de vê-los tranqüilos. Mas ao chegar na manhã seguinte as notas de enfermagem me informavam que haviam se agitado e, as vezes, agredido. Uma tarde cancelei os compromissos do consultório e fui ao Hospital Espírita. Para minha surpresa os pacientes estavam recebendo passes. Indignado, fui ao Dr. Rosa reclamar e ele respondeu, tranquilamente como era seu jeito: “Marcelo, acho que não reparaste que este é um Hospital Espírita”. Novembro de 1959. Naquele verão, Rosita e eu procuramos no Correio do Povo, então um jornal tamanho grande cheio dos anúncios econômicos, hoje concentrados na Zero Hora: procuramos e achamos uma casa grande para alugar, onde começo a Clínica Pinel S.A., com doze leitos e hospital dia. Era na esquina da Av. João Pessoa com a Lopo Gonçalves; ainda está lá.a inauguração em 28 de março de 1960, para livrar-me dos “benefícios” da assistência religiosa para os pacientes, me reservava uma surpresa: o primeiro médico que veio para a residência, uma espírita convicto, estava dando passes nos pacientes da Pinel. Depois dessa surpresa não tivemos o problema da mistura de religião com tratamento.

            A Clínica Pinel abriu vários caminhos importantes na Psiquiatria brasileira. Em março de 1960 iniciamos a primeira residência no Brasil, para médicos, assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e terapeutas ocupacionais. A residência foi um programa de ensino pós-graduado cuja repercussão se pode avaliar pelo afluxo de candidatos de todos os estados brasileiros e de alguns paises que hoje compõem o Mercosul. Em 1961 fui aprovado num concurso para a livre docência e graças a minha condição de professor, a residência em Psiquiatria para a UFRGS. Posteriormente a formação de enfermeiros psiquiátricos também foi feita através da escola de enfermagem da UFRGS.

            O programa de comunidade terapêutica foi uma inovação no tratamento de psicóticos no Brasil. A criação de uma comunidade clínica com regras e práticas que dessem ao psicótico/família condições para a resocialização, combina com prática grupais ocupacionais e recreacionais, possibilitaram um bom índice de recuperação. Os técnicos que trabalharam na comunidade terapêutica, por sua vez, aprenderam convivendo com os pacientes, familiares e colegas, o que as teorias dos livros ensinavam.

             A erudição da bibliografia ficou mais verdadeira com a sabedoria das vivências, possibilitando ter/ser o conhecimento.

            A comunidade terapêutica permitia que o tempo de internação, melhor aproveitado, fosse uma preparação para usar a outra novidade introduzida pela Clínica: o hospital-dia ou hospital-noite. Tão logo o psicótico e sua família aceitavam o risco de viver na comunidade, estes programas permitiam que eles passassem a noite e fim de semana no seu meio familiar, permanecendo na comunidade terapêutica nos horários diurnos, como os alunos de uma escola como eles de fato eram. Para outros, porém, cujo contato familiar era conflitivo, a alternativa era retomarem as suas tarefas profissionais e utilizar a comunidade a noite e nos fins de semana. Este modelo assistencial, trazido da Menninger, foi copiado em todo o Brasil.

            Os pacientes que já chegavam à Clínica com uma história longa de cronicidade ou aqueles cuja a evolução não permitia que retornassem ao seu ambiente familiar ou de trabalho , erma atendidos na Pensão Protegida, igualmente pioneira no Brasil para esse arranjo que liberava os dispendiosos leitos hospitalares e proporcionava um meio de campo entre hospital e comunidade, possibilitando a resocialização dos crônicos.

            Em 1964,. a Clínica Pinel S.A.se transformou na Associação Encarnacion Blaya, sociedade civil sem fins lucrativos mantenedora da Clínica e de outras instituições criadas pela Associação. Uma escolinha terapêutica possibilitou treinar técnicos no tratamento da criança e do adolescente psicóticos, em regime de comunidade terapêutica.

            Como prestávamos serviços aos Institutos de Aposentadorias e Pensões, e que depois se transformou em INSS e SUS, tínhamos verificado que o sistema de atendimento pré e pós hospitalar era deficiente. A criação de uma unidade de saúde Ulisses Pernambucano, em Cachoeirinha, ofereceu aquela população um atendimento ambulatorial de qualidade que reduziu as hospitalizações e permitiu uma atenção ao egresso da Clínica possibilitando uma alta em tempo mais curto.

            A Clínica como acima descrita durou 20 anos. Os melhores profissionais que haviam feito sua formação ficaram e desempenhara-se como professores, supervisores, chefes de serviços e terapeutas: entre eles os Drs. David E. Zimerman, Flavio Rotta Correa, Milton Shansis (falecido) e Carlos Gary Faria: a assistente social Isabel Reckziegel, e os enfermeiros Ruth Myllius, Jorge Alberto Rodrigues e Baltazar Lapis, os dois últimos após anos como atendentes psiquiátricos na Clínica. A atual administradora, Sra. Marilene Souza, foi uma coadjuvante leal e eficiente desde os começos da Clínica.

            Nos fins da década de 80 começou o corte de verbas para a saúde pelo governo dos generais. Fomos o primeiro serviço no estado a pedir a descredenciação face ao absurdo de estarmos pagando para prestar serviços excelentes. Hoje ainda temos dívidas da década de 80 que nos obrigaram a penhora nosso patrimônio à Previdência Social. A equipe da casa, reforçada por profissionais da psiquiatria infantil, chefiados pelo Dr. José Ottoni Outeiral, foram debandando pela incapacidade econômica e financeira.

            Atualmente a Clínica é um excelente hospital nos moldes médicos e psiquiátricos. A comunidade terapêutica deixou resquícios mas o que se prevalece é o modelo psicofarmacológico, com rara exceções. Essa mudança é exigida por quem paga a internação; a maioria dos pacientes são dos convênios que desejam p modelo farmacológico, que equivocadamente acham que é o mais barato. Muito da comunidade terapêutica continua no tratamento dos adictos ao álcool e às drogas. Esses pacientes recebem um tratamento no Centro Vitae, os serviços da Clínica organizados nos moldes dos Alcoólicos Anônimos e de serviços semelhantes existem nos Estados Unidos. Um dos psiquiatras da Clínica estagiou no melhor serviço daquele país e é esse o modelo ainda hoje usado no Centro Vitae. Para esses pacientes preservou-se a terapia de grupo e a terapia ocupacional. A única ocupação para este grupo é o estudo aprofundado das causas e dos efeitos da adição, inclusive as repercussões somáticas recorrentes das drogas.

 

 David Zimerman

 

Foi num cair de tarde de um dia primaveril de1960 que, num encontro casual com Marcelo Blaya, tomei conhecimento de que ele, recém  vindo da Clínica Menninger, onde passara cerca de quatro anos fazendo uma importante formação em psiquiatria, criara e fundara a "Clínica Pinel", sediada em Porto alegre, na Rua João Pessoa, numa casa especialmente adaptada para a finalidade de funcionar como uma moderna Clínica Psiquiátrica.

Marcelo e eu tínhamos sido colegas na turma que concluiu a formação médica pela faculdade de medicina da UFRGS em 1954 e, igualmente, fomos colegas como plantonistas do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre. Assim, no referido encontro, sabedor da forma como eu costumava encarar o ato médico, no que se referia ao relacionamento com o paciente, Marcelo me perguntou se eu ainda mantinha acesso o meu namoro com a psiquiatria. Em resposta, esclareci que estava fazendo um treinamento em pediatria no Hospital da Criança Santo Antonio, que vinha praticando clínica geral privada em consultórios alugados (junto a farmácias em Canoas e Porto Alegre), e que estava pensando na possibilidade de fazer residência na medicina interna em São Paulo; mas que , sim, embora tudo isso, eu continuava com firme namoro platônico coma psiquiatria. Marcelo, então, me  fez o convite para eu conhecer a Pinel, com vistas a possibilidade de me contratar, e foi realmente o que acabou acontecendo.

Naquele início de existência da Pinel, éramos três médicos: Marcelo, eu e Nelson Lemos que, após um breve tempo, desligou-se; de sorte que, juntamente com Marcelo, em dias alternados, nós dois nos revezávamos nos plantões, comumente muito movimentados, o que me fez tomar a decisão de adotar a Clínica como minha nova moradia. Assim, despertava cedo para dar início a insulinoterapia e eventuais aplicações de eletroconvulsoterapia, mantínhamos uma movimentada atividade de praxiterapia para os pacientes, consultas diárias com cada um deles, com um estreito acompanhamento dos familiares; e, sobretudo, investíamos a maior parte do nosso tempo e afeto para o incremento em ambientoterapia, nossa menina dos olhos.

De fato, a abientoterapia, ou seja, o próprio ambiente hospitalar funcionando como um dos mais importantes dos fatores terapêuticos, tomou um incremento extraordinário na Pinel, através de atividades de salão, jogos recreativos, esporte, sempre levando em conta o estímulo para um convívio comunitário. Já na época aplicávamos o hoje tão badalado “orçamento participativo” , no que se refere a tomada de decisões referente a vida na nossa comunidade hospitalar.

Para o êxito da ambientoterapia, a condição fundamental era de termos uma equipe de atendimento, em todos os níveis e escalões, suficientemente bem preparada. Para tanto, o recurso mais utilizado consistia no sistemático procedimento de reuniões de grupo. Assim, além das reuniões de “reflexão grupal” realizadas com os “atendentes” para treiná-los a uma melhor compreensão da dinâmica dos transtornos mentais dos pacientes, logo, de um manejo mais humanitário e fraternal, também mantínhamos “ assembléias gerais”, isto é, toda a comunidade – pacientes, atendentes, estagiários, pessoal da administração, paxiterapeuta, psicólogos, enfermeira, médicos, etc – debatia conjuntamente as melhore fórmulas de um convívio sadio, com os necessários direitos, limites e respeito recíproco de cada um e de toda a comunidade.

A essa altura, aumentava o número de pacientes, tanto dos que estavam em regime de internação integral, quanto os do hospital-dia e hospital-noite.

Impunha-se a necessidade de preenchermos a vaga deixada pelo Dr. Lemos, tarefa que na época não era nada facial, porque a especialidade na área da psiquiatria não despertava nos médicos algum atrativo especial. Só restava a alternativa de sair a busca de alguém que nos parecesse bom. Encontrei o Dr. Isaac Sprinz que, na ocasião estava batalhando por um lugar onde pudesse especializar-se em neurologia. Não foi difícil convence-lo de que a neurologia e a psiquiatria eram irmãs-primas...e, assim, ganhamos um excelente colega, como pessoa, psiquiatra e com um notório talento administrativo.

No início do ano seguinte, foi instituída oficialmente a residência em Psiquiatria, com um substancioso programa de ensino-aprendizagem, teórico, prático, e de pesquisa, essencialmente voltado para a psiquiatria dinâmica. Inicialmente, com uma nítida influência norte-americana, que em muitos aspectos, era novidade na época. Além da formação de psiquiatras, abrimos cursos de atualização para médicos em geral, psicólogos e assistente sociais. A cada ano, entravam novos médicos, candidatos a formação, numa sucessão que, nos primeiros tempos, exigia uma busca ativa e algo sedutora de nossa parte; porém, aos poucos, a Pinel foi gradativamente sendo reconhecida em todo o território nacional, de modo que possamos utilizar critérios de seleção mais exigentes.

Assim, o pioneiro corpo psiquiátrico da Pinel foi enriquecido com brilhantes figuras do nosso meio gaúcho (Porto Alegre, Pelotas, Santa Maria, etc) como podem ser mencionados, numa ordem seqüencial, e com inevitáveis omissões involuntárias, os nomes de Bernardo Brustem, Flávio R. Correa, Carlos Gari Faria, Milton Shansis, Hans J. Schreen, Harri Graeff, Eufrides Silveira, Paulo Juchen, Valter Daudt, Walmor Piccininni, Carmem Dametto ( esses dois últimos, enquanto estudantes de medicina, tinham sido nossos atendentes) e muitos, muitos outros se seguiram.

Dentre os colegas que vieram, especialmente os de outros estados, do Sul, Centro, Norte e Nordeste, cabe recordar, unicamente a título de ilustração, os nomes de Marlene Araújo, Carmem Tuma , Fernando Rocha, Onildo Contel, Eduardo Afonso Junior...

Dois fatores tiveram expressivo peso neste laudatório reconhecimento pelo Brasil todo: um, é a publicação “Arquivos da Clínica Pinel”, revista trimestral, criado por Marcelo Blaya, que publicava não só traduções de artigos de importantes autores internacionais, como também abria as portas para artigos modestos de residentes que estavam recém começando, como eu, ao que sempre serei grato, porque me representou um decisivo incentivo e gosto pelo estudo, criação e escrita dos conhecimentos adquiridos e de novas idéias.

O segundo fator relevante para a construção sólida da imagem da Pinel consistiu na participação de muitos nós, da Pinel, entre outros psiquiatras gaúchos, em um Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no início da década de 60, em Fortaleza-Ceará (a grande maioria de nós não tínhamos condições econômicas, mas a influência de um colega, Manuel Albuquerque, possibilitou um vôo gratuito num avião da FAB), que congregava a nata da psiquiatria brasileira e um grande contingente de jovens ávidos por aprender algo que contivesse uma proposta nova de entender e praticar a psiquiatria hospitalar. A bancada gaúcha plantou as sementes desta nova mentalidade de hospital psiquiátrico comunitário com ambientoterapia, no lugar de hospital-asilo, que virtualmente vigia até então.

Assim, a família da Pinel ia crescendo cada vez mais e tivemos que ampliar o número de casas alugadas para comportar a expressiva demanda de pacientes, até que Marcelo Blaya deu o grande e ousado passo da construção de um prédio próprio, que é justamente o da “Rua Santana”, onde funciona na atualidade a Clínica Pinel, passados mais de 40 anos.

Usei a expressa “Família Pinel” de modo deliberado, por quanto nos tempos pioneiros não só passávamos o tempo todo, de todos os dias úteis da semana, integralmente dedicados a Clínica, num convívio harmônico entre nós e os pacientes (almoçávamos e jantávamos nas mesmas mesas, sem distinção, ao que se seguia o ping-pong coletivo, o futebol de mesa...), como também nas tarde de sábado ou manhãs de domingo, ou em noites comemorativas, os familiares, cônjuges e filhos pequenos ( brilhavam as graciosas meninas Anete, Monica e Beatriz) nos acompanhavam e participavam dos jogos de vôlei, caçador, brincadeiras, teatro, saraus, cantorias (“serenôoo da madrugada”...), etc.

Era uma família unida, a da Pinel, que, embora os naturais e inevitáveis desgastes que o tempo promove, constitui-se como uma árvore frondosa, produzido intermináveis frutos e continuadas ramificações.

Redigi o presente texto com o título “evocações”; mas, a medida que ia escrevendo senti que o nome mais apropriado é o de “recordações”, levando em conta a etimologia desta palavra que deriva dos etmos latinos “re” (de novo, mais uma vez) + “cor,cordis” ( coração), por quanto tudo que aqui sumarizei provei, de forma muito saudosa e grata do fundo do meu coração.

Dr. David E. Zimermann         Porto Alegre, julho de 2000.